Faço, a partir de hoje, uma reverência ao estranho. Na verdade, aos estranhos.
Esclareço.
Há o estranho substantivo. Copiando e colando o que o Sr. Aurélio diz: S.m. Indivíduo estrangeiro / Pessoa que não conhecemos. Digo, então, tomando essa definição, que os estranhos substantivos são tantos, são muitos, que todos somos estranhos. “Pessoa que não conhecemos”. Há quem se conheça tão bem que não seja, pelo menos às vezes, um estranho para si mesmo? Pior ainda para os outros. Não raro sente-se um estrangeiro dentro de sua própria terra (ou simplesmente ele não nasceu na terra deveras sua).
O indivíduo estrangeiro. Todo o estrangeiro é estranho, todo o estranho é estrangeiro, em sua própria terra, entre seus próprios pares. A imagem do estrangeiro traz um mistério em si. O mistério do estranho, do não tangível, do não previsível, do não catalogado, do não conhecido. O mistério fascina e é quase um buraco negro, um vácuo, para onde somos sugados (e por isso temos medo de chegar perto), onde ficamos absortos, no não entendimento. Para que entender? Absorção é contemplação. Contempla o estranho substantivo, pois, mas não fique parado! Reclamo por uma contemplação ativa! O encantamento do mistério do estranho está justamente no contato. Eis seu fascínio. Quem nunca ouviu da sua mãe, “não converse com estranhos”. Então eu digo: “Converse com os estranhos!”. Vá, converse, e será sugado pelo buraco negro. Não há o que temer e não há caminho de volta.
Esta é a forma de aliviar a angústia do nosso estranho interior.
Há também o estranho adjetivo. Copiando e colando o que o Sr. Aurélio diz: adj. Incomum, contrário ao uso, à ordem, ao bom senso; extraordinário: um fenômeno estranho. No campo da adjetivação, já é mais difícil saber o que qualificar como estranho e o que qualificar como ordinário. Já que a massa mediaticamente fermentada acaba por engolfar a todos, tornando o estranho simplesmente corriqueiro. Embora ela não saiba, ainda, que o estranho está no mais corriqueiro.
Rogo, então, por todos os contra-sensos! À não obediência servil à ordem, ao bom senso, ao progresso, à limpeza. Se o estranho está no corriqueiro, rogo pela extraordinarização do corriqueiro. Adjetive-se com o estranho, seja comumente extraordinário. Um fenômeno estranho.
Não venha apontar o dedo na minha cara, dizendo que nada disso faz sentido. Vá ler o título e veja que isso se trata de um manifesto estranho. Portanto ele é contrário à ordem, um non-sense que, se nos dermos conta dos estrangeiros que habitam em nós, fará sentido.
Quero o estranho estranho! Substantivo adjetivado!
Indivíduo estrangeiro incomum.
Pessoa que não conhecemos contrária ao bom senso.
Indivíduo estrangeiro contrário ao uso.
Chega das mesmices pasteurizadas e capitalizadas. Quero as bizarrices mesmo-que-a-caminho-da-massificação.
Deixe o estranho entrar.