domingo, 19 de dezembro de 2010

O giz e o pó

Não sei precisar o momento exato em que o giz, esfarelado, tornou-se pó, esbranquiçado. A forma fálica, capturada pelos dedos da professora, escrevia, escrevia, e escrevia no quadro. A professora fungava. Reclamava. Detestava o giz. Talvez ela colocasse a forma fálica excessivamente perto do nariz, atacando-lhe algo. Fungava. De vez em quando espirrava.

Eu, sempre sentado na primeira fileira. Perto do giz que se transformava em pó. E perto de todas as palavras forjadas no quadro – na tela de projeção. A professora virava-se para nós, virava-se para mim, satisfeita ao terminar a passagem de um texto infinito cheio de moralidades sobre como o bem traz frutos duradouros e sempre vence o mal muito embora vocês saibam que ele vai amputar algo importante que vocês não irão sentir falta mas algo estará faltando e portanto vocês não serão completos.

Ela fungava e me fitava. A professora devia ter sua volúpia, peitos grandes. Peitos não me interessavam. O que me excitava era o que estava entre seus dedos – aquela forma cilíndrica que me conduziria ao pó; conduziria o pó até mim.

Aquilo que haveria de despertar minha luz interior, não os peitos da professora. Seus peitos de nada serviam para mim, e ela sabia disso. Seduzia-me com aquilo que eu desejava, fazia esfarelar-se na minha frente. Regozijava-se em me torturar. Em pouco tempo parecia vidrada, seus olhos mal fechavam e diziam-me que era a minha vez. Todo aquele texto cheio de moralidades criara um depósito de pó ao longo do patamar do quadro. O pó que se desprendera do texto, do giz, era o que eu desejava. Num ímpeto, por ter percebido que eu havia descoberto a farsa de que tudo aquilo se tratava, a professora soprou o patamar e o pó inundou-me o rosto. “Toma, se é isso que desejas, cú-de-ferro”.

Uma excitação tomou conta de mim. Finalmente o que eu mais desejava era meu. A luz interior estava acesa. Sentia-me preencher-me pela luz, gradualmente, e meu corpo recuperava as partes antes amputadas pelo texto. Meus olhos abertos, vidrados, tentavam capturar todos os conceitos e aforismos que saltavam de minha cabeça, como máquinas desgovernadas. Meu cérebro pensava os pensamentos mais brilhantes que nunca antes pensara. Tudo repentinamente fazia sentido. O mistério do mundo não era mais mistério. Eu havia matado a charada e, justamente por isso, eu era melhor que todos os idiotas que estavam sentados naquela sala, até mesmo melhor que a professora. Meus olhos, vidrados, tingiam-se de vermelho e inalavam todo o texto que a professora escrevera. Inalar era o que me habilitava a expirá-lo.

Mas qualquer coisa de repente estava errada. Fiquei apreensivo. Uma coisa me escapava. Tudo me escapava. As idéias me abandonavam. Para onde estavam indo? A luz se enfraquecia e eu percebia que estava me esvaziando, novamente.

Olhei em súplica para a professora. Ela, em nítido desdém, virou as costas para mim e passou a apagar o quadro. A minha mente em branco, vazia. Fiquei ali parado, perplexo, assistindo as palavras se desintegrarem na lousa. Entendi que somente me restava esperar pelo próximo texto cheio de moralidades. E inalar todas suas imoralidades.

4 comentários:

  1. NAO NAO NAO! CHEGA DE MORALIDADES!

    PASSAMOS DIRETAMENTE AO PO!


    O GIZ TBM SEMPRE ME ATRAIU SABE, NAO SEI PQ ¬¬

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  2. C A P E T A!!!
    Penso em mim nesse texto né, vai diz q ñ?
    rsrsrsrsrsr
    AMO-TE!

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  3. Mas nem parece que bebeu um ano de humanismo...adorei :D
    bjinhus

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  4. Quero um teco desse giz a-go-ra! ;)

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