quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Desastre doméstico

Antes de tudo, observe a foto abaixo, tirada por mim hoje.



A história é essa:

Cheguei hoje da academia e encontrei, no meu banheiro, a cena da foto. A minha primeira reação foi uma exclamação silenciosa, um espanto afônico e incrédulo. “Gente, como assim?!”

Sabonetes, shampoos, creme para cabelo, condicionadores, esfoliante facial, e até uma lixa, tudo caído no chão, como se um redemoinho tivesse passado por ali. E onde tudo deveria estar? Meus utensílios para banho DEVERIAM estar num suporte próprio, que ESTAVA afixado na parede. O dito suporte, como se pode observar na foto, não apenas despencou, mas também em vôo livre foi aterrissar do lado de fora do box. Sim, ele é aquele objeto caído logo em frente à privada.

Posteriormente, além de ficar pensando em como eu iria tomar banho no meio daquela bagunça, me indaguei como teria sido o momento exato da queda. Que barulho fez? Certamente deve ter sido um estrondo, muitos sons de coisas caindo no chão, quase como se um bêbado estivesse dentro do chuveiro tentando encontrar o condicionador. Qual foi a trajetória do suporte, que com maestria libertou-se da parede, enxotou tudo o que tinha em cima dele e foi parar além da fronteira, pra fora do box? Seria lindo ter uma câmera filmando todo esse processo em slow-motion. Certamente daria um ótimo filme de art cult.

Fiquei pensando ainda nos momentos, nos momentos sucessivos (será que a filmagem conseguiria captá-los?). Certamente aquele processo não se deu instantaneamente. Foi algo que foi acontecendo aos poucos. Aos poucos o plástico do suporte foi cedendo. Rachando. Lentamente. A cada segundo, uma célula partida. E num somatório de células rasgadas, o corpo partiu-se. Conseguiria o filme captar o derradeiro instante, em que a derradeira célula, o último sustentáculo do suporte, partiu-se?

O vôo do suporte foi um espetáculo silencioso. Quase não existiu. Não havia espectadores. Nem os vizinhos devem ter ouvido.

Mas do desastre, tirando o incômodo prático, não saíram feridos. Nenhum pote aberto, nenhuma embalagem partida. Sem creme derramado.

domingo, 19 de dezembro de 2010

O giz e o pó

Não sei precisar o momento exato em que o giz, esfarelado, tornou-se pó, esbranquiçado. A forma fálica, capturada pelos dedos da professora, escrevia, escrevia, e escrevia no quadro. A professora fungava. Reclamava. Detestava o giz. Talvez ela colocasse a forma fálica excessivamente perto do nariz, atacando-lhe algo. Fungava. De vez em quando espirrava.

Eu, sempre sentado na primeira fileira. Perto do giz que se transformava em pó. E perto de todas as palavras forjadas no quadro – na tela de projeção. A professora virava-se para nós, virava-se para mim, satisfeita ao terminar a passagem de um texto infinito cheio de moralidades sobre como o bem traz frutos duradouros e sempre vence o mal muito embora vocês saibam que ele vai amputar algo importante que vocês não irão sentir falta mas algo estará faltando e portanto vocês não serão completos.

Ela fungava e me fitava. A professora devia ter sua volúpia, peitos grandes. Peitos não me interessavam. O que me excitava era o que estava entre seus dedos – aquela forma cilíndrica que me conduziria ao pó; conduziria o pó até mim.

Aquilo que haveria de despertar minha luz interior, não os peitos da professora. Seus peitos de nada serviam para mim, e ela sabia disso. Seduzia-me com aquilo que eu desejava, fazia esfarelar-se na minha frente. Regozijava-se em me torturar. Em pouco tempo parecia vidrada, seus olhos mal fechavam e diziam-me que era a minha vez. Todo aquele texto cheio de moralidades criara um depósito de pó ao longo do patamar do quadro. O pó que se desprendera do texto, do giz, era o que eu desejava. Num ímpeto, por ter percebido que eu havia descoberto a farsa de que tudo aquilo se tratava, a professora soprou o patamar e o pó inundou-me o rosto. “Toma, se é isso que desejas, cú-de-ferro”.

Uma excitação tomou conta de mim. Finalmente o que eu mais desejava era meu. A luz interior estava acesa. Sentia-me preencher-me pela luz, gradualmente, e meu corpo recuperava as partes antes amputadas pelo texto. Meus olhos abertos, vidrados, tentavam capturar todos os conceitos e aforismos que saltavam de minha cabeça, como máquinas desgovernadas. Meu cérebro pensava os pensamentos mais brilhantes que nunca antes pensara. Tudo repentinamente fazia sentido. O mistério do mundo não era mais mistério. Eu havia matado a charada e, justamente por isso, eu era melhor que todos os idiotas que estavam sentados naquela sala, até mesmo melhor que a professora. Meus olhos, vidrados, tingiam-se de vermelho e inalavam todo o texto que a professora escrevera. Inalar era o que me habilitava a expirá-lo.

Mas qualquer coisa de repente estava errada. Fiquei apreensivo. Uma coisa me escapava. Tudo me escapava. As idéias me abandonavam. Para onde estavam indo? A luz se enfraquecia e eu percebia que estava me esvaziando, novamente.

Olhei em súplica para a professora. Ela, em nítido desdém, virou as costas para mim e passou a apagar o quadro. A minha mente em branco, vazia. Fiquei ali parado, perplexo, assistindo as palavras se desintegrarem na lousa. Entendi que somente me restava esperar pelo próximo texto cheio de moralidades. E inalar todas suas imoralidades.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Manifesto estranho

Faço, a partir de hoje, uma reverência ao estranho. Na verdade, aos estranhos.

Esclareço.

Há o estranho substantivo. Copiando e colando o que o Sr. Aurélio diz: S.m. Indivíduo estrangeiro / Pessoa que não conhecemos. Digo, então, tomando essa definição, que os estranhos substantivos são tantos, são muitos, que todos somos estranhos. “Pessoa que não conhecemos”. Há quem se conheça tão bem que não seja, pelo menos às vezes, um estranho para si mesmo? Pior ainda para os outros. Não raro sente-se um estrangeiro dentro de sua própria terra (ou simplesmente ele não nasceu na terra deveras sua).

O indivíduo estrangeiro. Todo o estrangeiro é estranho, todo o estranho é estrangeiro, em sua própria terra, entre seus próprios pares. A imagem do estrangeiro traz um mistério em si. O mistério do estranho, do não tangível, do não previsível, do não catalogado, do não conhecido. O mistério fascina e é quase um buraco negro, um vácuo, para onde somos sugados (e por isso temos medo de chegar perto), onde ficamos absortos, no não entendimento. Para que entender? Absorção é contemplação. Contempla o estranho substantivo, pois, mas não fique parado! Reclamo por uma contemplação ativa! O encantamento do mistério do estranho está justamente no contato. Eis seu fascínio. Quem nunca ouviu da sua mãe, “não converse com estranhos”. Então eu digo: “Converse com os estranhos!”. Vá, converse, e será sugado pelo buraco negro. Não há o que temer e não há caminho de volta.

Esta é a forma de aliviar a angústia do nosso estranho interior.

Há também o estranho adjetivo. Copiando e colando o que o Sr. Aurélio diz: adj. Incomum, contrário ao uso, à ordem, ao bom senso; extraordinário: um fenômeno estranho. No campo da adjetivação, já é mais difícil saber o que qualificar como estranho e o que qualificar como ordinário. Já que a massa mediaticamente fermentada acaba por engolfar a todos, tornando o estranho simplesmente corriqueiro. Embora ela não saiba, ainda, que o estranho está no mais corriqueiro.

Rogo, então, por todos os contra-sensos! À não obediência servil à ordem, ao bom senso, ao progresso, à limpeza. Se o estranho está no corriqueiro, rogo pela extraordinarização do corriqueiro. Adjetive-se com o estranho, seja comumente extraordinário. Um fenômeno estranho.

Não venha apontar o dedo na minha cara, dizendo que nada disso faz sentido. Vá ler o título e veja que isso se trata de um manifesto estranho. Portanto ele é contrário à ordem, um non-sense que, se nos dermos conta dos estrangeiros que habitam em nós, fará sentido.

Quero o estranho estranho! Substantivo adjetivado!

Indivíduo estrangeiro incomum.

Pessoa que não conhecemos contrária ao bom senso.

Indivíduo estrangeiro contrário ao uso.

Chega das mesmices pasteurizadas e capitalizadas. Quero as bizarrices mesmo-que-a-caminho-da-massificação.

Deixe o estranho entrar.