
Estava na casa dos meus pais, caminhando da cozinha até meu quarto, quando vislumbro, no espelho da sala, uma borboleta. Provavelmente o local insólito que escolhera para repousar foi a primeira coisa que me chamou atenção. Pousada no espelho, mantendo-se firme diante de toda a gravidade da sala, tinha sua autoridade. Era uma dama de branco.
Achei que o momento merecia um registro. Tirei uma foto sua.
A borboleta no espelho estava sendo eternizada.
Mas além de sua tranqüilidade e serenidade, havia uma beleza nela. Não era uma borboleta ordinária, que se encontra em casa e nos ataca de vez em quando, num destemido vôo suicida. Não sei dizer se ela era de uma espécie rara, mas tinha sua classe. E sabia de sua beleza. Tanto que escolhera o espelho para repousar. Veja você mesmo: ela está admirando seu reflexo.
Descansava merecidamente. Estava cansada de ter crescido, por assim dizer. Primeiro, foi uma lagarta graciosa. Diferente. Incompreendida. Cheia de pés e mãos, queria ser algo bom, mas atrapalhava-se toda. Cedo descobriu que o mundo era perigoso. Por ser uma réles lagarta, podia ser devorada a qualquer instante. E o mundo todo a sua volta tinha fome. Ela era um alvo ótimo, por toda a sua atrapalhação e estranhice.
De tanto medo, transformara-se num casulo. Virara uma múmia, de fato. Com tudo o que conseguira apreender daquele mundo faminto, construíra sua casca. E estava protegida. Imóvel.
Dentro do casulo algo fervilhava. A lagarta ainda não morrera. E decidira que aprenderia a voar, seria esplendorosa em sua estranheza. Seria seu triunfo final. Todos os outros haviam sido devorados. A lagarta salvara-se por sua esquisitice, por sua atrapalhação. Todos os púberes bonitos, filhotes lindos, foram devorados. A natureza saciara-se da beleza deles. A lagarta fora poupada. E, como uma noiva, de branco, emudeceria a todos com sua beleza, em pleno vôo.
Mas havia certo veneno na noiva. É uma noiva má, amante incerta e traiçoeira. Justamente por isso mais bela e sedutora. Não pode ver, também, uma certa malícia em seu olhar?
O mundo não se saciou dela, e agora ela saciava-se em ver-se desenvolta. Estava presa a sua imagem no espelho.
Descansava ali, porém, de maneira imprudente.
E seria aniquilada, sem piedade, por qualquer dono de casa histérico.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirPor que tu não me chamou pra ver? Muito sinistra!
ResponderExcluir